• monica.almeida

O Amor na Era dos produtos Digitais

Atualizado: 7 de Abr de 2018


Lembro-me como se fosse ontem, o entusiasmo do meu irmão mais velho e de primos, a falarem numa de uma sala de chat no MIRC onde conversavam com pessoas que, na maior parte das vezes não conheciam.


Estavam eufóricos e entusiasmados com aquele fenómeno, que pensava para mim: será sentem "borboletas" na barriga? será que ficam com as pernas bambas, como ficava quando via o tal rapaz mais velho da escola por quem sentia uma paixonite?


Sempre me perguntei, o que me fez ficar apaixonada por ele? Se eu não ouvia a voz dele, nunca passei tempo com ele a interagir - então quais foram as qualidades que me fizeram gostar dele, em primeiro lugar?


Na altura, perguntei a minha mãe, tias e primas mais velhas, porquê que nos apaixonávamos. As respostas eram sempre muito vagas e variadas, oriundas de experiências da vida real (o cheiro, o toque, o sorriso, a beleza), ao mais cliché do sentimental (lembranças de personagens de filmes, livros ou novelas).


Se tivesse que fazer um ranking entre as respostas superficiais às respostas mais profundas do porquê que as pessoas se apaixonavam, as respostas seriam:


1. Beleza

2. Senso de humor

3. O quão confiável a pessoa aparenta ser

4. o quão prestativas são essas pessoas para connosco

5. Como essas pessoas nos fazem sentir.


Ao ver a nova juventude e como eles interagem uns com os outros, especialmente quando falo com os meus irmãos mais novos, sou confrontada com novas formas de abordagem. E não preciso de ir tão longe, o verão passado, uma amiga convenceu-me que o Tinder é o melhor aplicativo de sempre. Tola, sem saber o que era, descarreguei e comecei a criar ao meu perfil. Achei piada aos "match", sobretudo por saber que há quem gaste dinheiro para ter estrelas no tal aplicativo (ainda tentei eliminar a minha conta, mas sem sucesso). De qualquer forma, as pessoas passam imenso tempo do dia em apps ou plataformas digitais. Eu mesma apanhei um susto, quando um amigo aconselhou-me a ver o tempo que passo em cada um dos aplicativos de telemóvel.


Como designer desses aplicativos, tenho de explorar o que existe no mercado e ver como me sinto ao usar os mesmos, para garantir que a interacção pareça fácil e o mais natural possível. Muitas vezes ao desenhar, tenho de olhar para eles como "pessoas" e adicionar um vislumbre de personalidade, um traço agradável, algumas interacções menos formais, que aumentam a experiência dos usuários a estes produtos, tornando-os não apenas utilizáveis mas desejáveis.


Quando começamos a ver os produtos digitais de uma forma mais "humana", não é difícil mapear porque alguns são mais atraentes do que outros.


E sem darmos por ela começamos a amar os produtos exactamente pelas mesmas razões que nos apaixonamos pelas pessoas e o factor confiança é o que nos faz manter ou não as plataformas nos nossos dispositivos. E se citarmos Bosco " ao apaixonarmo-nos o indivíduo fica refém de outro como quase em nenhuma experiência relacional humana". E é verdade! Como nos sentimos quando, por exemplo, o nosso histórico no whatsapp simplesmente... desaparece?


Apesar da tecnologia em muito facilitar a comunicação nos dias de hoje, tornando-a mais célere, objectiva e barata, o que faz as pessoas usarem aplicativos de relacionamento? Prefiro acreditar que a busca por encontros em que a rejeição pode ser atenuada pela ausência de um contacto face a outra face. Daí a compatibilidade.

Mas será que essa compatibilidade é compatível, de facto?

O amor em tempo de produtos digitais, parece ser muito fácil. É tudo muito rápido, há uma necessidade de partilhar os momentos deste "suposto" amor, com as outras pessoas. Mas não será porque as pessoas querem aparentar estar felizes?


Quando em 2006, o Facebook fez um redesign que incorporou a actualização de status onde as pessoas puderam partilhar o seu estado civil com os demais amigos, havia uma necessidades de alguns firmarem relacionamentos para o público. Mas... não será isso uma exposição demasiada da nossa vida pessoal? Não será que buscamos aprovação dos outros perante as nossas próprias insatisfações?


O amor na era digital é fácil, é fugaz mas também me parece descartável. Porque hoje é tão fácil amarmos uma pessoa... ou pelo menos dizermos que amamos.


Percebo que existam vários tipos de amor, mas também vários tipos de sentimentos que facilmente podemos relacionar ao amor, mesmo que não seja de facto amor que nós sentimos.


O que está por detrás desse amor digital que vemos todos os dias nos nossos feeds?

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